Por Teo Cordeiro (teo.cordeiro@gmail.com)

Ainda recolhendo forças para superar o luto pela morte de Steve Jobs na última semana, sempre há espaço para render homenagens a esse ilustre californiano. De onde quer que esteja neste momento ele não poderia imaginar tamanha repercussão midiática seduzida por sua singular história de vida, de superações, quando nos remetemos a sua origem humilde com abandonos familiares e vivências pra lá de doloridas. Referem-se a sua capacidade genética de resiliência como responsável pelo seu êxito no ramo das tecnologias computacionais, deixando um legado imprescindível à área da comunicação de marketing. Com a Apple, notemos, há uma verdadeira “revolução” na comunicação virtual planetária.

Passaríamos mais algumas páginas apenas para tratar das contribuições jobsianas à conectividade mundial, mas considero que estas já estejam em domínio público e suficientemente esclarecidas. Importante talvez seja darmos visibilidade a uma contribuição que supera qualquer outra de caráter tecnológico elaborada por Jobs. E essa, infelizmente, ele não pôde testemunhar, mas tem rendido efetivos resultados a um pequeno mais poderoso seguimento social da qual ele próprio fazia parte até poucos dias atrás. A “contribuição” tem endereço certo: a massa de trabalhadores e trabalhadoras, espalhados pelo mundo, que de maneira histórica começam a questionar alguns pressupostos tidos como inexoráveis. Seja na Alemanha, França, Grécia, Portugal, Espanha ou no nosso vizinho Chile, milhares de trabalhadores têm ocupado as ruas parecendo colocar em xeque uma verdade sempre posta em prática quando o capitalismo enfrenta uma crise: corte de salários e empregos, terceirizações, privatização de serviços públicos e empresas estatais, e aumento da carga tributária para o segmento da base da pirâmide social. Os indignados do século XXI, talvez com maior expressão desde a década anterior, parecem querer não apenas denunciar os abusos de um sistema político-financeiro que privilegia novamente à reprodução dos interesses da classe hegemônica.

Enquanto aumenta o coro da denúncia, vai surgindo uma atmosfera de questionamento das próprias bases que sustentam esse modo produtivo incompatível com a democracia plena, com os direitos básicos de vida, com a sustentabilidade planetária. Alguns parecem, inclusive, não estar mais dispostos a dialogar com o governo, sempre afeito a soluções repressivas e/ou consensuais, como fizeram recentemente os estudantes chilenos. Tamanha movimentação popular tem sido capaz de constranger representações midiáticas privadas tradicionalmente sensíveis às explicações comportamentais vazias de sconteúdo político. Vão se distanciando gradualmente as manchetes análogas ao “vandalismo, ao quebra-quebra de jovens inconsequentes”, dado o aumento do número de greves, de manifestações públicas, fazendo emergir um fio que liga as insurgências a uma mesma causa.

Eis que surge Steve Jobs! Ou melhor, eis que morre Steve Jobs. E, “interrompemos nossa programação (vermelha demais) para o pronunciamento do execelentíssimo …”. Nada melhor para fragilizar e/ou deslegitimar um movimento como tirá-lo de foco. Afinal, é por um bom motivo. Faz-se para dialogar e persuadir diretamente aquele que, em sua sala, começa a querer se juntar aos subversivos. – Não! – dizem os meios televisivos. – Vejam o exemplo de Jobs! Sua história de vida humilde não foi suficiente para lhe dar um destino trágico. Seu empenho e força de vontade foram determinantes para seu progresso, como explica o entusiasta brasileiro Cássio Gondim, coordenador de TI do laboratório de computação gráfica TecGraf da PUC-Rio: “As rejeições que enfrentou em sua infância deixaram-lhemarcasSob essas condições, Steve Jobs teria tudo para se tornar um psicopata ou um marginalEle venceu porque possuía algo dele, um ‘drive‘ que o levou a realizar e se superar. Jobs foi um exemplo de superação, sabendo transformar uma terrível situação deinfância numa fonte de motivação produtiva e criativa que o levou até o sucesso que teve” ( Reportagem, site do O Globo, 05 de outubro).

            Então, você aí, do outro lado da telinha! Saiba transformar suas limitações materiais em força de vontade para superar, e vencer! Se possível, para vencer na vida, aprenda as “20 lições do homem que mudou o mundo” (capa do O Dia, 09 de outubro). Santo Jobs! Dois séculos depois de David Ricardo e Adam Smith, a burguesia imperialista reedita a velha tese para a classe trabalhadora, na qual as chances de mobilidade na vida são ligadas a sua força de vontade individual de querer superá-las! Enquanto assiste à Tv e recebe com clareza a mensagem, exemplificada no caso Jobs, Seu José olha a seu redor e não consegue resgatar na memória nenhuma família ou amigo que tenham consigo subir ao andar de cima da renda per capita. Muito pelo contrário, percebe, como fez Marcio Pochman, que os brasileiros pobres que estudam e trabalham são verdadeiros heróis, pois submetem-se a uma jornada de até 16 horas diárias, oito de trabalho, quatro de estudo e outras quatro de deslocamento, ultrapassando os operários no século XIX!

Resta saber se essa antiga tática burguesa global, da hiper valorização do indivíduo, e de naturalização da expropriação da mais-valia da classe trabalhadora – agora, segundo Eike, não mais trabalhadora, mas colaboradora – encontrará ressonância nos Seus Zés, sonhando se tornar Steve, ou veremos um esgotamento na crença desse discurso, homogêneo em todas as telinhas, fazendo seu Zé reparar na tendência desigual dessa forma de organização econômica e política que só será extrapolada por iniciativa consciente dos sujeitos na mesma condição. Sugando o máximo do mártir burguês Jobs, e sua trajetória vencedora, pedagógica para os estratos pauperizados e possíveis subversivos, as atenções se voltam, por constrangimento e não desejo, aos conflitos de classe na Grécia, na Espanha, no Chile e de forma incipiente no Brasil, vide a greve dos bancários, dos Correios, dos Bombeiros, dos professores das redes públicas. Se a insatisfação parece generalizar-se e unificar-se pelo reconhecimento da causa única, algumas famílias vão torcendo pela morte de outro Jobs! Afinal, fazia muito tempo que isso não acontecia.

Téo Cordeiro

Rio, 10 de outubro de 2011.

Anúncios