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1.3 Vertentes da Reconceituação, ruptura com o conservadorismo e a apropriação da teoria social de Marx

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Segundo Yazbek, as 3 principais vertentes que emergiram no bojo do Movimento de Reconceituação são:

  1. A vertente modernizadora caracterizada pela incorporação de abordagens funcionalistas, estruturalistas e mais tarde sistêmicas (matriz positivista), voltadas a uma modernização conservadora e melhoria do sitema pela mediação do desenvolvimento social e do enfrentamento da marginalidade e da pobreza na perspectiva de integração da sociedade. (…) Configuram um projeto renovador tecnocrático fundado na busca da eficácia e eficiência para nortear a produção do conhecimento e a intervenção profissional;
  2. A fenomenologia, que emerge como metodologia dialógica, que, apropriando-se da visão de pessoa e comunidade, dirige-se ao vivido humano, aos sujeitos em suas vivências, atribuindo o Serviço Social com a tarefa de auxiliar a abertura desse sujeito existente, singular em relação aos outros e ao mundo de pessoas. Valoriza o diálogo e a transformação das pessoas, sendo analisada por José Paulo Netto como uma reatualização do conservadorismo inicial da profissão;
  3. A vertente marxista que remete a profissão à consciência de sua inserção na sociedade de classes e que no Brasil vai configurar-se, em um primeiro momento, como uma aproximação ao marxismo sem o recurso ao pensamento de Marx.

É claro que a apropriação da Teoria Social de Marx não se deu de forma unilateral e adialógica. Foi resultado de imensos e desgastantes debates e disputas internas e externas nos espaços de organização acadêmica e profissional do Serviço Social. Internamente, a apropriação da vertente marxista teve várias divergências também, quer pelas abordagens reducionistas dos marxismos de manual, quer pelo cientificismo e formalismo metodológico (estruturalista) presente no “marxismo” althusseriano ( referência ao filosofo francês cuja leitura da obra de Marx vai influenciar a proposta marxista do Serviço Social nos anos 60/70 e particularmente o Método B.H), que segundo Yazbek, foi um “marxismo equivocado que recusou a via institucional e as determinações sócio-históricas da profissão.

É com esse referencial que a profissão questiona a sua prática institucional e seus objetivos de adaptação social ao mesmo tempo que se aproxima dos Movimentos Sociais e das organizações da classe trabalhadora. Tem-se o início da vertente comprometida com a ruptura com o Serviço Social tradicional e conservador.

1.1 As primeiras matrizes do conhecimento e da ação do SS brasileiro

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As tendências de análise e interpretação da intervenção do Serviço Social sob a realidade social, mesmo que derivadas das transformações sociais provocadas pelo desenvolvimento do capitalismo, não podem ser configuradas como homogêneas. Isto porque são análises e compreensões fundadas em um acervo constituído pelas principais matrizes do pensamento social e em constantes confrontos internos, fazendo interlocuções com as movimentações da realidade.

Para Yazbek, o ponto de partida do processo de incorporação do arcabouço teórico da profissão são:

1)      “idéias e conteúdos doutrinários do pensamento social da igreja católica, em seu processo de institucionalização do Brasil”;

2)      “principais matrizes teórico metodológicas acerca do conhecimento do social na sociedade burguesa”.

A relação da profissão com o ideário do pensamento social da Igreja Católica se dá na gênese da profissão. É uma relação que vai imprimir o caráter apostolado, concebendo a “questão social” como problema moral e atribuindo intervenções para a priorização da família e indivíduo enquanto solução dos problemas sociais, materiais e morais – ou seja, a questão social é individualizada e sua responsabilidade está na organização moral e social de cada indivíduo. O serviço social tem a responsabilidade de incidir sobre os valores e comportamentos dos indivíduos, a partir do referencial moral da Igreja Católica, integrando (leia-se enquadrando) às relações sociais vigentes.

O pensamento dessa matriz teórica é permeado pelo ideário Franco-Belga de ação social, pensamento de São Tomás de Aquino (sec.XII) – tomismo e neotomismo. Apesar do doutrinarismo e conservadorismo não se constituírem como Teorias Sociais, foi a primeira orientação de visão de mundo que conduziu o Serviço Social para sua elaboração de uma visão de mundo.

O Serviço Social, na verdade, a partir da visão de mundo mencionada, vai buscar na matriz positivista o seu primeiro suporte teórico-metodológico. O método positivista trabalha as relações aparentes dos fatos. Restringe a visão de teoria aquilo que pode ser verificado e experimentado. Sua intervenção é no sentido de preservar e conservar aquilo que já existe e a visão de problema é fragmentada.

O questionamento a esse referencial se dá a partir dos anos 60 com as novas mudanças econômicas, políticas, sociais e culturais na sociedade.

2.3.2 – O conservadorismo da Igreja Católica e a teoria social positivista

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No ínicio dos anos 40, o Serviço Social e seu pensamento de fonte da doutrina social da Igreja e seus ideiais Franco-belgas, avançam para um desenvolvimento tecnico ao entrar em contato com o Serviço Social norte-americano – permeado pelo caráter conservador da teoria social positivista.

Esta busca pelo Serviço Social norteamericano e a teoria positivista advém da necessidade de cumprir com as demandas crescentes, de trabalhadores empobrecidos, por bens e serviços. Estes trabalhadores desempregados, fruto do processo de desenvolvimento e acumulação do capital, começam exigir e pressionar o Estado por ações assistenciais. Assim, criam-se instituições assistenciais estatais para intervenção do Estado no processo de reprodução das relações sociais, regulando assim tanto a viabilização do processo de acumulação quanto o atendimento das necessidades sociais das classes subalternas.

Assim, podemos dizer que o primeiro suporte teórico-metodológico do serviço social foi a matriz positivista. Segundo Yasbek,

Este horizonte análitico aborda as relações sociais dos indivíduos no plano de suas vivências imediatas, como fatos, como dados, que se apresentam em sua objetividade e imediaticidade. O método positivista trabalha com as relações aparentes dos fatos, evolui dentro do já contido e busca a regularidade, as abstrações e as relações invariáveis.

A visão de teoria era restrito ao âmbito da experimentação e da fragmentação (a fragmentação, inclusive, tornou-se característica histórica das políticas sociais brasileiras, concebidas setorialmente como se o social fosse a simples somatória de setores da vida, tornando alções de caráter pontual e localizado). Não aponta para mudanças, senão dentro da ordem estabelecida – buscando antes ajustes e conservação.

É pois, a partir desses referênciais que o Estado, gradativamente, impulsiona a profissionalização do assistente social e ampliando seu campo de trabalho em função das novas formas de enfrentamento da questão social

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